O crime organizado no Amapá não age apenas nas periferias, nos becos, penitenciária e áreas dominadas pelo tráfico na cidade. Ele atravessou os muros do sistema prisional e chegou à política, alcançando os engravatados e seus indicados que assumem cargos públicos, movimentando milhões de reais e usando estruturas públicas quem lavam dinheiro e fortalecem facções locais. Apesar de muita gente imaginar que esse cenário só existe em outros estados, a realidade amapaense é bem diferente — e muito mais profunda do que parece.

As facções passaram a atuar em várias frentes, como financiamento de campanhas de aliados, indicações políticas que contaminam a máquina pública, a manipulação de contratos de aluguéis de imóveis e veículos, intimidações a adversários políticos e até a tentativa de lançar candidatos próprios para ocupar cargos eletivos.

Nos últimos anos, mesmo com operações intensas das forças de segurança, que realizaram – e realizam – apreensões de drogas, armas e celulares nos presídios – Iapen, CCE, entre outros – do estado, a facção amapaense – cujo o Portal Ney Pantaleão não divulga o nome por política editorial – mantém forte poder financeiro.

A divisão de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO) da Polícia Civil, comandada pelo delegado Estéfano da Silva Santos, com apoio da secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) tem conseguido desmontar parte da estrutura, via decisões judiciais, mas cada operação revela novas conexões e ramificações.
EM MACAPÁ
Em 2024, um criminoso ligado à facção chegou a disputar a eleição para vereador em Macapá, contando com apoio direto de integrantes da própria organização. Ele acabou preso antes do pleito e não conseguiu êxito nas urnas. Outro caso envolve um advogado conhecido por defender membros de facção. Ele também lançou candidatura, mas acabou alvo de operações policiais que enfraqueceram sua campanha e resultaram na derrota nas urnas. Esses dois episódios se somam à prisão do subsecretário de Zeladoria de Macapá, Jesaias Silva e Silva, o “Jeiza”, ex-assessor do prefeito Antônio Furlan.

EM VITÓRIA DO JARI
Em novembro de 2025, um caso grave estourou no município de Vitória do Jari. A polícia prendeu preventivamente o secretário de Infraestrutura da prefeitura local, José Diercirlei Nei de Souza, conhecido como “Cirley Souza”, apontado como o coração financeiro de um esquema milionário. Ele é irmão do ex-prefeito Dielson Souza e do vereador Léo Ney, atual líder do prefeito Ary Duarte na Câmara.

MAIS DE R$ 3 MILHÕES SEM ORIGEM
De acordo com a investigação, “Cirley Ney Souza” teria movimentado mais de R$ 3,3 milhões em poucos meses, sem ter renda compatível com esse volume financeiro. Uma pequena parte do dinheiro, segundo os policiais, veio da empresa D F do Amaral EIRELI (Construtora Amaral), que recebeu mais de R$ 1 milhão em contratos da própria prefeitura que o secretário preso preventivamente fiscalizava.

A suspeita ganhou força quando os investigadores descobriram que a construtora, que funcionava em uma casa de madeira, movimentou mais de R$ 4,6 milhões em apenas seis meses — apontando forte indício de que seria empresa de fachada usada para lavar dinheiro ou abastecer a facção.
O esquema também contava com o uso de “laranjas”, geralmente pessoas de baixa renda para receber e repassa grandes quantias. Um desses envolvidos, de apenas 18 anos, movimentou R$ 1,6 milhão sem qualquer fonte de renda. O dinheiro entrava e saía rapidamente em pequenas parcelas, prática conhecida como smurfing, comum em lavagem de dinheiro.
RELATÓRIO DO COAF
De acordo com a polícia, documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) confirmaram as movimentações suspeitas, enquanto os diálogos extraídos dos celulares mostraram como o grupo movimentava o dinheiro e sustentava o tráfico no estado. A operação expõe, de forma clara, a ligação entre tráfico, corrupção e desvio de dinheiro público, um tripé que ameaça a segurança, a política e o futuro do Amapá.
QUEBRA DE SIGILO E PRISÃO
A investigação ganhou força após a polícia quebrar o sigilo de celulares apreendidos em outras operações. As mensagens revelaram uma rede criminosa estruturada, com funções definidas e forte conexão com o tráfico de drogas. Diante das provas reunidas, o juiz Mateus Pavão, da 2ª Vara de Garantias de Macapá, autorizou a prisão preventiva de 11 acusados na operação Lâmina de Prata. Segundo a decisão, manter o grupo solto representava alto risco para a sociedade, devido ao poder financeiro e ao alcance político da organização.
O Portal NP tentou contato com todos os citados, mas não recebeu respostas até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações ou contestações dos envolvidos.
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