Facções se infiltram na política, lavam dinheiro e movimentam milhões em esquema que envolve servidores e obras públicas no Amapá

O crime organizado chegou à política, alcançando os engravatados, movimentando milhões de reais usando estruturas públicas quem lavam dinheiro e fortalecem facções.

Ney Pantaleão
7 Min Read

O crime organizado no Amapá não age apenas nas periferias, nos becos, penitenciária e áreas dominadas pelo tráfico na cidade. Ele atravessou os muros do sistema prisional e chegou à política, alcançando os engravatados e seus indicados que assumem cargos públicos, movimentando milhões de reais e usando estruturas públicas quem lavam dinheiro e fortalecem facções locais. Apesar de muita gente imaginar que esse cenário só existe em outros estados, a realidade amapaense é bem diferente — e muito mais profunda do que parece.

Facções se infiltram na política, lavam dinheiro e movimentam milhões em esquema que envolve servidores e obras públicas no Amapá
Polícia apreendeu dinheiro que a facção pagou para servidor público facilitar entrada de celulares na cadeia.

As facções passaram a atuar em várias frentes, como financiamento de campanhas de aliados, indicações políticas que contaminam a máquina pública, a manipulação de contratos de aluguéis de imóveis e veículos, intimidações a adversários políticos e até a tentativa de lançar candidatos próprios para ocupar cargos eletivos.

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O ex-diretor adjunto da Escola São José, que fica dentro do Iapen, foi preso após ser cooptado por facção.

Nos últimos anos, mesmo com operações intensas das forças de segurança, que realizaram – e realizam – apreensões de drogas, armas e celulares nos presídios – Iapen, CCE, entre outros – do estado, a facção amapaense – cujo o Portal Ney Pantaleão não divulga o nome por política editorial – mantém forte poder financeiro.

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Acusados de pertencerem a facção foram alvos de mandados de busca e apreensão.

A divisão de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO) da Polícia Civil, comandada pelo delegado Estéfano da Silva Santos, com apoio da secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) tem conseguido desmontar parte da estrutura, via decisões judiciais, mas cada operação revela novas conexões e ramificações.

EM MACAPÁ
Em 2024, um criminoso ligado à facção chegou a disputar a eleição para vereador em Macapá, contando com apoio direto de integrantes da própria organização. Ele acabou preso antes do pleito e não conseguiu êxito nas urnas. Outro caso envolve um advogado conhecido por defender membros de facção. Ele também lançou candidatura, mas acabou alvo de operações policiais que enfraqueceram sua campanha e resultaram na derrota nas urnas. Esses dois episódios se somam à prisão do subsecretário de Zeladoria de Macapá, Jesaias Silva e Silva, o “Jeiza”, ex-assessor do prefeito Antônio Furlan.

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“Jeiza” e “Caçula” presos preventivamente acusados de envolvimento com facção do Amapá.

EM VITÓRIA DO JARI
Em novembro de 2025, um caso grave estourou no município de Vitória do Jari. A polícia prendeu preventivamente o secretário de Infraestrutura da prefeitura local, José Diercirlei Nei de Souza, conhecido como “Cirley Souza”, apontado como o coração financeiro de um esquema milionário. Ele é irmão do ex-prefeito Dielson Souza e do vereador Léo Ney, atual líder do prefeito Ary Duarte na Câmara.

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 “Cirley” segue preso preventivamente na penitenciária do Estado.

MAIS DE R$ 3 MILHÕES SEM ORIGEM
De acordo com a investigação, “Cirley Ney Souza” teria movimentado mais de R$ 3,3 milhões em poucos meses, sem ter renda compatível com esse volume financeiro. Uma pequena parte do dinheiro, segundo os policiais, veio da empresa D F do Amaral EIRELI (Construtora Amaral), que recebeu mais de R$ 1 milhão em contratos da própria prefeitura que o secretário preso preventivamente fiscalizava.

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Acessórios de ouro foram apreendidos pela polícia durante cumprimento de mandado de busca.

A suspeita ganhou força quando os investigadores descobriram que a construtora, que funcionava em uma casa de madeira, movimentou mais de R$ 4,6 milhões em apenas seis meses — apontando forte indício de que seria empresa de fachada usada para lavar dinheiro ou abastecer a facção.

O esquema também contava com o uso de “laranjas”, geralmente pessoas de baixa renda para receber e repassa grandes quantias. Um desses envolvidos, de apenas 18 anos, movimentou R$ 1,6 milhão sem qualquer fonte de renda. O dinheiro entrava e saía rapidamente em pequenas parcelas, prática conhecida como smurfing, comum em lavagem de dinheiro.

RELATÓRIO DO COAF
De acordo com a polícia, documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) confirmaram as movimentações suspeitas, enquanto os diálogos extraídos dos celulares mostraram como o grupo movimentava o dinheiro e sustentava o tráfico no estado. A operação expõe, de forma clara, a ligação entre tráfico, corrupção e desvio de dinheiro público, um tripé que ameaça a segurança, a política e o futuro do Amapá.

QUEBRA DE SIGILO E PRISÃO
A investigação ganhou força após a polícia quebrar o sigilo de celulares apreendidos em outras operações. As mensagens revelaram uma rede criminosa estruturada, com funções definidas e forte conexão com o tráfico de drogas. Diante das provas reunidas, o juiz Mateus Pavão, da 2ª Vara de Garantias de Macapá, autorizou a prisão preventiva de 11 acusados na operação Lâmina de Prata. Segundo a decisão, manter o grupo solto representava alto risco para a sociedade, devido ao poder financeiro e ao alcance político da organização.

O Portal NP tentou contato com todos os citados, mas não recebeu respostas até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações ou contestações dos envolvidos.

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